As urnas encerraram a disputa pelo governo da Bahia no primeiro turno, mas não colocaram um ponto-final nas movimentações políticas. Entre declarações que anteciparam escolhas, alianças mantidas e posicionamentos que seguiram direções diferentes, a corrida presidencial abriu um novo capítulo para personagens que, poucos dias antes, estavam envolvidos na mesma eleição estadual.
A noite de 4 de outubro já oferecia os primeiros sinais. Derrotado pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT), reeleito com cerca de 55,8% dos votos válidos, ACM Neto (União Brasil) agradeceu aos apoiadores e indicou que sua atuação política não terminaria com o resultado das urnas. Em entrevista coletiva após a votação, deixou uma frase que ganharia outro significado nos dias seguintes: “Primeiro nós vamos mudar o Brasil para certamente depois mudar a Bahia”.
O ex-prefeito de Salvador também anunciou que viajaria a Brasília para discutir o posicionamento de seu partido no segundo turno presidencial. Naquele momento, ainda não havia formalizado apoio a Flávio Bolsonaro (PL), mas a referência à necessidade de uma mudança nacional já sinalizava a direção que suas articulações poderiam tomar.
Do outro lado da disputa estadual, Jerônimo Rodrigues comemorava a reeleição e se preparava para intensificar a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). A continuidade de seu projeto político na Bahia estava diretamente associada à candidatura presidencial petista, que enfrenta Flávio Bolsonaro no segundo turno.
A posição do governador era esperada, considerando sua ligação com o Partido dos Trabalhadores. Mas, entre os aliados de ACM Neto, o cenário não seria tão uniforme.
Carlos Muniz (PSDB), presidente da Câmara Municipal de Salvador, havia apoiado o ex-prefeito na corrida pelo governo estadual, sem esconder sua preferência pessoal por Lula na eleição presidencial. Embora acompanhasse politicamente o grupo de ACM Neto na Bahia, já havia deixado claro que sua escolha para a Presidência da República não era partidária.
A distinção era importante. Muniz separava o apoio dado ao candidato ao governo estadual de sua decisão pessoal sobre quem deveria ocupar o Palácio do Planalto. O posicionamento também encontrava espaço dentro do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), que havia integrado a aliança estadual de ACM Neto, mas liberou seus filiados para escolher entre os candidatos à Presidência no segundo turno.
Encerrada a votação de 4 de outubro, o presidente da Câmara voltou ao assunto. Em entrevista publicada no dia 6, reafirmou sua preferência por Lula e explicou os motivos da escolha.
“Eu, como voto em Lula, espero que Lula venha ganhar a eleição. Eu acho que será melhor não só para a Bahia, mas para o Brasil e para as pessoas mais necessitadas”, declarou.
Muniz também deixou claro que não ficaria restrito à condição de eleitor. “Farei política para que Lula venha ganhar a eleição”, afirmou, anunciando sua participação na campanha pela reeleição do presidente.
Enquanto Muniz reafirmava seu apoio a Lula, a sinalização feita por ACM Neto na noite da derrota estava prestes a se transformar em compromisso oficial.
Em 7 de outubro, três dias depois da votação, o ex-prefeito apareceu em Brasília ao lado de Flávio Bolsonaro e anunciou apoio à candidatura do senador. “Precisamos mudar o nosso país”, afirmou, retomando a ideia apresentada ainda na noite eleitoral.
Dessa vez, não se tratava apenas de uma indicação sobre os próximos passos. Neto prometeu mobilizar prefeitos, deputados e outras lideranças políticas da Bahia em favor do candidato do Partido Liberal (PL).
A decisão marcou uma diferença em relação a 2022, quando o ex-prefeito, então candidato ao governo estadual, optou pela neutralidade no segundo turno presidencial. Quatro anos depois, escolheu participar diretamente da disputa nacional.
O prefeito de Salvador, Bruno Reis (União Brasil), acompanhou o posicionamento. No mesmo dia, declarou que seguiria a decisão partidária e trabalharia ao lado de ACM Neto pela candidatura de Flávio Bolsonaro.
“O Brasil precisa mudar. E, para a gente mudar a Bahia, primeiro precisamos começar mudando o nosso país”, afirmou Bruno, relacionando uma eventual mudança no governo federal às perspectivas políticas para o estado.
O prefeito também destacou que a decisão havia sido tomada pelo grupo político e confirmou sua participação na mobilização eleitoral. “Na Bahia, vamos estar motivados e mobilizados, trabalhando ao lado de ACM Neto e de tantas lideranças que acreditam que chegou a hora de construir um novo caminho para o nosso país”, declarou.
O alinhamento entre o prefeito e o ex-prefeito estava definido. A diferença em relação a Carlos Muniz, entretanto, também ficava mais evidente.
Jerônimo Rodrigues acompanhava os movimentos da oposição e reagia ao apoio anunciado por ACM Neto. No próprio dia 7, criticou a decisão do ex-prefeito, afirmando que a neutralidade adotada anteriormente havia sido uma estratégia eleitoral. O governador também declarou esperar uma votação expressiva de Lula na Bahia.
Em apenas quatro dias, a disputa estadual deu lugar a uma nova configuração de apoios. ACM Neto e Bruno Reis decidiram trabalhar pela candidatura de Flávio Bolsonaro. Jerônimo Rodrigues manteve a mobilização em torno de Lula, enquanto Carlos Muniz, aliado dos dois primeiros na política municipal, reafirmou sua escolha pessoal pelo presidente.
A eleição para o governo da Bahia já estava resolvida. A presidencial começava a mostrar que nem todos os que compartilharam o mesmo palanque estadual seguiriam o mesmo caminho em Brasília.







